Cartas que desisti de enviar II

Amada,

Escrevo por aqui por não saber escrever carta. Embora as ondas que formam a grande nuvem da internet sejam mais complexas do que o papel lúdico, é simples como a minha intenção: querer dar-lhe notícias. E também estou com preguiça de ir aos Correios.

Ainda ouço aquelas músicas para dormir. O ritmo é sonolento e devagar como eu. Mas agora misturei algumas músicas de tua playlist na minha. É uma das várias maneiras que encontrei de te manter por perto. Não que eu precise. Ontem mesmo um amigo falou em “queijo” e eu fiquei rindo sozinho.

Não sem uma pontinha de tristeza. Até porque estou acostumado a ver o lado cinza das coisas. No fim, sentir saudades tuas é uma coisa boa. Porque me lembra da pessoa maravilhosa que tenho ao meu lado.

Não me estenderei muito nesta curta carta, pois sei que o tempo não tem sido largo para ti.
Espero teu abraço em breve, de qualquer forma.

Sentido

Eles dormiram abraçados, com medo do mundo ser apenas pó ao acordar. Com medo de amanhecer e tudo não passar de um sonho em uma noite cansada. E, mesmo com cenários não muito animadores para o futuro, sabiam que aquele momento valia cada segundo. Cada respiração compassada.

Não tenho nem pretendo ter as respostas para nossa vida. Na verdade, a acho ordinária e comum na maior parte do tempo. Mas são momentos em que nada mais importa, em que tudo pode acabar, que nos fazem extraordinários.

Bem, ele não aguentou a expectativa e, insone, acordou no meio da noite. Precisava confirmar que ela continuava ali. Precisava saber que seus dedos deslizando em suas costas ainda a fazia sorrir, ainda que dormindo.

Precisava sentir que o amor ainda o fazia extraordinário.

1 x 0

Certas coisas ficam na minha cabeça durante dias, meses ou até anos. Das mais aleatórias, como cenas dos Simpsons de anos atrás, em que o prefeito dá uma solução absurda para infestação de ratos, até as nem-tão-importantes, como as preposições listadas de A-Z.

E quando puxo uma imagem minha e tua da memória, quase sempre estamos jogadas em teu colchão, com o pouco de luz que tua janela deixa entrar pela manhã. Ou tarde, já que nunca sabemos direito que horas acordamos. Lembro do cheiro e da sensação de conforto e segurança que é te abraçar ainda sem expulsar a inércia do corpo. A nossa respiração compassada, nossas pernas laçadas e a tua voz sonolenta e cochichada dizendo que também me ama.

Não sem surpresa, são nesses momentos que a saudade aperta. Os olhos fechados tentam, de alguma forma, qualquer que seja, me transportar. Porém, a realidade insiste em me mostrar que apenas um travesseiro se adapta ao tamanho dos meus braços.

É, a saudade venceu outra vez. Mas nem sempre é assim. Alguns dias eu perco também.