Cartas que desisti de enviar

Amada,

Sem outros meios satisfatoriamente rápidos, te escrevo na esperança que as ondas do wireless levem um pouco do meu abraço ao teu. E te diga que sinto tua falta quando eu caminho pela rua nessa amostra de inverno ou quando admiro algum quadro em um museu de teto abobadado inatingível.

Ou quando, sozinho no ônibus, finjo estar lendo para justificar um riso repentino. Sempre vem a certeza de que, contigo ali, riríamos juntos de coisas absurdamente banais. De como eu falho em achar teu umbigo com um cutucão ou das cócegas que tu sente no, bem, em todo corpo.

E que te sentir por perto, acompanhar tua respiração, seguir o ritmo de teus passos nas escadas, ouvir sobre teu dia e tuas histórias e ver teus últimos desenhos… Me faz tão vivo. Espero o início do próximo mês. Então, nos teremos de novo. Num abraço mais quente que este.

Com amor e saudades.

Fantasmas

Virei para o lado. Precisava dormir. Fechar os olhos não era suficiente. Havia frio e inquietação no ar. Havia eu, me agarrando às últimas palavras daquela noite.

Eram três da manhã e chovia. Não podia te ligar a essa hora. Ainda mais se fosse apenas repetir o que tinha acado de falar. Mas a inquietação era tamanha que me consumia. A culpa doía. E o medo também.

Fiquei eu e o escuro e as piores probabilidades se estendendo diante de minhas pupilas. Todas elas geniosamente forjadas na insegurança. O romantismo não é tão romântico de perto.

Queria que soubesses

Sinto falta de ti. E me pergunto a que horas acorda e vai se deitar. No que pensas, lê, escuta ou vê. E imagino o que tu diria se estivesses aqui.

Sinto falta de mim. E me culpo por não me expressar mais tão intensamente. Sinto que não sou mais o mesmo e não sei dizer se isso é bom. Fica a teu critério.

Sinto falta de nós. Apertados num abraço. Soltos pelo sofá. Da forma como a tua presença combina com a minha.