Saída

O ar sufoca apenas de saber que é a última vez que faria isso. O caminho até ali nunca fora tão longo. Talvez a nossa percepção do mundo mude de acordo com a situação. Ou isso seja só uma desculpa para sermos babacas de vez em quando. A questão é lá estava eu, e minhas coisas, do lado de fora.

Havia esquecido uma camiseta, uma de minhas favoritas. De propósito, provavelmente. Digo isso porque não saberia dizer se estava controlando meus passos. Pelo que lembro, nem respirava. Era como se eu pudesse observar a cena toda através de uma fina película sépia.

Aproveitei para sentar no meu lugar do sofá uma última vez, enquanto dobrava a roupa em meu colo. Ali, tinha vivido coisas pequenas, mas as quais jamais esquecerei. Como os primeiros passos de meu filho ou as várias reuniões de amigos.

Ela também estava lá dentro. O processo era tão dolorido que mal podíamos nos encarar. Mas depois do fim, com os olhos já secos, quando podemos ver o quadro já montado, as coisas não precisavam ser tão conflitantes. O arrependimento, apesar de um erro, é inevitável.

Pedimos desculpas. Esboçamos um sorriso e ensaiamos um abraço. Aqui vai mais um arrependimento errado e inevitável: devia ter ficado lá um pouco mais.

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Instinto

Tem gente que foge. E outros ficam. De responsabilidades, dores e de relacionamentos. E os que fogem, veem uma ligação nessas três palavras. Não os culpo: sou dos que ficam e também vejo um encadeamento inevitável ali.

Fugir é um ato quase irracional. A simples menção da palavra “amor” é como um estampido para uma gazela. Corre-se sem nem saber porque. Engraçado como a mesma inteligência que pode nos fazer refletir se foi uma arma ou uma árvore caindo em algum lugar, pode também nos fazer ficar. E morrer nas mãos do terrível caçador.

Ela é das que correm. Ou ao menos era. Pacientemente, aprendemos a confiar – e conviver – com o outro. Sem pressa.

Amor, na mesma medida que traz responsabilidade e dor, enche-nos de sentido e conforto. Na dúvida, não corra.