1 x 0

Certas coisas ficam na minha cabeça durante dias, meses ou até anos. Das mais aleatórias, como cenas dos Simpsons de anos atrás, em que o prefeito dá uma solução absurda para infestação de ratos, até as nem-tão-importantes, como as preposições listadas de A-Z.

E quando puxo uma imagem minha e tua da memória, quase sempre estamos jogadas em teu colchão, com o pouco de luz que tua janela deixa entrar pela manhã. Ou tarde, já que nunca sabemos direito que horas acordamos. Lembro do cheiro e da sensação de conforto e segurança que é te abraçar ainda sem expulsar a inércia do corpo. A nossa respiração compassada, nossas pernas laçadas e a tua voz sonolenta e cochichada dizendo que também me ama.

Não sem surpresa, são nesses momentos que a saudade aperta. Os olhos fechados tentam, de alguma forma, qualquer que seja, me transportar. Porém, a realidade insiste em me mostrar que apenas um travesseiro se adapta ao tamanho dos meus braços.

É, a saudade venceu outra vez. Mas nem sempre é assim. Alguns dias eu perco também.

Reflexo

Quando era criança
quebrei um espelho.
Meu azar
foi crescer assim.
Sentimental.
Quebrei-me
diversas vezes depois.
Tentava consertar.
Terminava estilhaçado.
Ela juntou os pedaços.
Mostrou que não havia erro
no quanto.
E sim no quem.
Deixei, então,
De ser espelho.
Não reflito mais o passado.